segunda-feira, 28 de junho de 2010

Vermelho Paixão



Era um garoto diferente, diziam, talvez precoce, não gostava de jogar futebol e de apostar as figurinhas de seu álbum favorito, como os amigos faziam, aliás, ele nem possuía um álbum. Passava as tardes sentado com sua babá em um banco de praça, lendo algumas histórias infantis que acreditava serem imaturas demais para ele e tentava, incessantemente, encontrar distrações capazes de amenizar a ausência dos pais, monopolizados pelo trabalho. Não encontrara uma grande razão para sorrir até então. O foco de sua atenção sempre se perdia em meio ao nada. Ele mantinha-se distante do tempo presente, apenas não queria estar ali. Preferia viver na apatia do que se entregar à miséria da lamentação. Foi um garoto triste até encontrá-la.

Ele realmente não era como os outros garotos, era mesmo precoce. Enquanto seus colegas transformavam seus sentimentos por garotas em asco, ele tinha a convicção de que estava apaixonado. No auge de seus 9 anos, estava extasiado por uma mulher, uma mulher de verdade, não aquelas garotinhas com quem convivia na escola. Ela usava salto alto, tinha um charme ímpar e sorriu para ele. Ela também o amava. Com aquele sorriso, ele foi capaz de perceber a reciprocidade do sentimento que tinham um pelo outro. A vida parecia finalmente fazer sentido, os livros que ele chegou a odiar, tornaram-se, então, objeto de inspiração para sua história de amor com a mulher de seus sonhos. A partir daquele momento, ele sentiu-se como um homem, afinal, garotos não amam.

Era final de tarde. Em pouco tempo, ele e a babá voltariam para casa e tudo o que construíra naquelas horas na praça poderia se perder ou nem chegar a acontecer. Ele, como homem, teria de tomar alguma atitude. Em sua lembrança, palpitavam alguns fragmentos de filmes que o faziam acreditar na verdade de seu sentimento. Enquanto o sol cedia lugar à noite, o garoto encorajava-se a tomar sua dama pela mão, declarar seu amor e preparar seu coração para a felicidade ininterrupta que os esperava. Seu peito pulsava de forma mais intensa, ele estava decidido, porém ela se afastava, caminhava na direção oposta a ele. A cada passo que a mulher avançava, o garoto sentia seu coração ser pisoteado por ela. O amor era mesmo complexo, era para os loucos, para os fortes. O amor era para os homens de verdade. Ele jamais poderia lidar com aquele sentimento claustrofóbico que fora despertado em seu peito. Ele era pequeno demais para lidar com aquele amor. Um amor inocente, equivocado, platônico. O primeiro amor, que se despedaçou na porta da casa em que a mulher entrara para não mais sair. A casa da fachada com luzes vermelhas.